A PRIMEIRA PRESIDENTE DE UM CLUBE PROFISSIONAL

Muitos não sabem, mas o Inter-SM teve em 1985, a primeira Presidenta de um clube profissional no Brasil, era ela, Sirlei Dalla Lana. Confira abaixo duas reportagens sobre a Presidenta para as revistas Placar e Veja.

REVISTA PLACAR - EDIÇÃO 780 - 03/05/1985

PRESIDENTA DO INTER-SM – Cartola Querida

Um dia desses, a presidenta do Internacional, de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, Sirlei Dalla Lana, procurou o técnico do seu time, Tadeu Menezes, e pediu: “Tadeu, me dê uma aula de futebol. Quero entender esse negócio de quarto-zagueiro, ponta-de-lança, impedimento, e preciso que você me ensine”. Tadeu não ensinou e justificou, bem-humorado: “Enquanto a senhora ignorar essas coisas, eu estou livre de palpites na escalação”. Ela soltou uma gargalhada e foi tentar aprender com alguma outra pessoa do clube.

Completado seu primeiro mês na condição de única presidenta de clube de futebol profissional no Brasil, no último dia 26, a advogada e professora Sirlei, 44 anos, casada e mãr de três filhas, ainda hesita diante de alguns mistérios desse esporte. Mas, em Santa Maria, cidade de 220 000 habitantes a 324 km de Porto Alegre, ninguém nota. Ela foi eleita, sobretudo, para resolver os problemas do lado de cá do túnel, e os mesmos conselheiros que se arrepiaram diante das despesas de 25 milhões mensais e soltaram a bomba para Sirlei já a apontam como um dos presidentes mais dinâmicos da história do clube.

“É nossa Margareth Thatcher”, brinca o diretor de futebol César Dalla Corte. “Ai, que nojo me compararem com esta mulher”, reage Sirlei, que estranha não ter identificado nenhum telegrama de congratulações de feministas, entre as dezenas que recebeu de mulheres de todo o Brasil. “Afinal, estou invadindo um espaço masculino, como elas preconizam.”

Para enfrentar os problemas típicos de um clube do interior – falta de dinheiro, desinteresse dos torcedores -, Sirlei poderia falar grosso, como a Dama de Ferro Inglesa. Mas preferiu a argúcia feminina. Foi chorar na porta da Prefeitura e conseguiu ônibus de graça para as viagens do time nos jogos da deficitária Copa ACEG. Dinamizou a escolinha, que já conta com 200 garotos; esses garotos atraem as mães para as apresentações que eles fazem nos intervalos dos jogos; elas entram de graça, mas como em Santa Maria os machões não soltam suas mulheres sozinhas em estádios, a renda acaba aumentando.

Outra de Sirlei: ela sabia que muitos casais da classe média sonhavam frequentar os salões do clube mais fino da cidade, o Nossa Senhora das Flores. Não teve dúvida: conseguiu o clube emprestado e está promovendo jantares dançantes com renda para o Inter. Com isso – e sem descuidar das promoções ditas masculinas, como bingo, campanhas de sócios, vendas de painéis de propaganda -, Sirlei está conseguindo dinheiro para levar a folha de pagamento em dia e até para realizar um velho sonho de administrações passadas, o de construir uma concentração no estádio do slube, o Presidente Vargas, “Não pretendo parar”, avisa ela. “Com um pouco mais de choro, a Prefeitura nos ajuda a construir a cancha de futebol de salão aqui nos fundos do estádio, e assim vamos aumentar um pouco mais nossa renda.”

“Pode vir”, diz o prefeito Haidar Farret. “Para Sirlei eu faço o que posso. Ela é dinâmica uma barbaridade e é assim que eu gosto de gente.” No clube, dizem até que, na época em que os conselheiros hesitavam sobre quem botar na presidência, Farret foi lá e “sugeriu”: “Se não for Sirlei, eu não ajudo em nada”.

TODOS SÃO EDUCADOS

Se no plano administrativo se tornou um sucesso, a singular cartola vira ídolo quando desce até o departamento de futebol. “Somos conhecidos como o time da tia e gostamos disso”, conta o meia-armador Cacau, ex-Grêmio, 34 anos. Da primeira vez que foi ao vestiário conversar com os jogadores, Sirlei saiu impressionada com a educação deles e, mais tarde, foi perguntar a Cacau se eram sempre assim. A resposta: “Que nada, tia. É uma cambada de sem-veronhas. Tem que ver quando a senhora não está aqui”.

Era brincadeira. Mas a presença de Sirlei no ônibus, nas viagens para outras cidades, não deixa de inibir o grupo. Ela reclama, por exemplo, que os jogadores costumam tratá-la mais como mulher do que como presidenta: “Gostaria que eles se dirigissem a mim como aos outros diretores”. Mas isso é impossível: nunca houve um dirigente que distribuísse bombons no ônibus, como ela faz. Não pense, porém, que Sirlei amolece o coração da hora de renovas contratos de jogadores. “Só que com ela não tem enrolação”, revela Tadeu. “O jogo é aberto e o clube paga o máximo que pode.”

Objetiva, despachada, simpática, Sirlei é daquelas mulheres que não podem ficar sem o que fazer. Talvez por isso tenha achado pouco advogar e ser coordenadora da assistência judiciária da Universidade Federal de Santa Maria quando, em 1983, entrou para o conselho deliberativo do Inter. Em 1984, segundo conta, deram-lhe um golpe. “Eu saí da sala para atender um telefonema e, quando voltei, estava eleita presidenta do conselho”.

Finalmente, em março deste ano, o clube há dois moses sem um presidente efetivo, impuseram-lhe o cargo que, junto com o de prefeito e o de reitor da universidade, é um dos que conferem mais status na cidade. Seu marido, Jorge Dalla Lana, que tem uma distribuidora de gás e uma empresa de terraplanagem, dá-lhe toda força. “Não existe a primeida dama? Pois eu sou o primeiro damo”, diz ele, conformado com o fato de cada vez ser menos mulher. Na semana passada, Sirlei saiu de manhã, rumo a Porto Alegre, participou de uma reunião de mais de 3 horas na Federação e voltou a Santa Maria às 10 da noite, a tempo de jantar com a família. Cansada mais feliz, comunicou ao marido: “Consegui botar o nosso Inter na chave que eu queria, na Copa Farroupilha. Eles engrossaram e eu ameacei: “Então vamos para o sorteio’. Aí, deu tudo certo”.

Fenômeno do avanço feminino no futebol, Sirlei às vezes faz vôos mais altos. Dias atrás, participou do programa Essas Mulheres Maravilhosas, da Rede Bandeirantes, em São Paulo.

Nem lá deixou de defender os interesses do clube. Ao final da gravação – que irá ao ar no próximo dia 22 – , tinha convencido a cantora Silvinha Araújo a se associar ao Inter de Santa Maria, a 1 450 km dali.

REVISTA VEJA - EDIÇÃO 867 - 17/04/1985

O Internacional de Santa Maria, clube de futebol da primeira divisão do Rio Grande do Sul, elegeu para presidí-lo a advogada Sirlei Dalla Lana, 44 anos, a primeira mulher no país a ocupar um cargo como este. Eleita pelos votos de 67 conselheiros, todos homens, e no cargo desde o último dia 26, Sirlei ganhou o apoio também dos jogadores do time. “É ótimo negociar contratos com ela”, garante o goleiro Vlamir, 24 anos. “E o pagamento já começa a sair em dia”. Torcedora entusiasmada, Sirlei comparece a todos os jogos do Internacional, sempre acompanhada do marido e das três filhas. Sua eleição só criu um problema: o Internacional já começa a ser chamado pelos adversários de “Time da Tia”.

Futebol, "Gênero Brasileiro": O Caso Sirlei Dalla Lana no Esporte Clube Internacional em Santa Maria (1985)

Trabalho Final de Graduação TFG apresentado ao Curso de História, Área de Ciências Sociais e
Humanas, do Centro Universitário Franciscano – UNIFRA, como requisito parcial para aprovação na disciplina TFG II, por Dérico Dutra Berlese Junior. Leia AQUI

DIÁRIO DE SANTA MARIA - 31/10/2017

No dia 31 de Outubro de 2017, o  Diário de Santa Maria publicou uma entrevista com Sirlei Dalla Lana, que conta um pouco mais sobre sua história, como começou seu amor pelo futebol entre outros assuntos. Para ver a entrevista, acesse clicando AQUI.